Nem feminista, nem machista: pessoa!

A questão do gênero começou a me interessar quando descobri que havia generalizado meu caso pessoal. Calcei as sandálias da humildade quando entendi que a situação da mulher é a representação de uma construção social realizada a partir da dominação masculina. Admiti que ser protagonista dos meus sonhos é uma das variáveis fundamentais para chegar onde determino. No entanto, essa pode não ser a única variável da equação.

A educação corporativa é construída, no mínimo desde a revolução industrial, sob a égide de um modelo que privilegia a soberania dos homens. Isso pode representar um entrave real para muitas mulheres. Muitas lutam por espaço profissional sem perceberem esses bloqueios e acabam assimilando os freios como uma incapacidade pessoal. Outras achando que nem vale a pena lutar, pois não encontrarão espaço para se desenvolverem profissionalmente, uma vez que assumem como seus a maioria dos papéis domésticos e da educação dos filhos. Esbarram em dificuldades sem entender de onde elas vêm. Muitas vezes não concebem que os obstáculos estão na sua própria cabeça, inculcados por meio de modelos educacionais que as doutrinaram para acreditar que muitos atributos e direitos fazem parte do gênero.

Sendo assim, decidi aprofundar meus estudos sobre a questão do gênero. Quanto mais estudo o assunto, mais acredito que a solução está na criação de grupos de trabalho nos quais homens e mulheres compartilhem seus sentimentos, construam o que poderia ser uma organização na qual ambos assumam papéis em função de suas pessoas e não em função do gênero ao qual pertencem e codefinam uma cultura organizacional na qual aprendam a jogar juntos novamente.

Poderemos, assim, evitar aquelas reuniões nas quais as mulheres quando fornecem uma ideia não são ouvidas e, cinco minutos depois, outro colega diz o mesmo e todos acham genial. Ou ainda, evitar culturas organizacionais nas quais o homem que não fica falando da mulherada sofre mobbing dos colegas que o acusam de não ser um homem de verdade. Sim, a construção social sob a dominação masculina infringe atributos em função do gênero com seus consequentes papéis que pesam tanto sobre a mulher como sobre o homem. Se não desconstruirmos tudo para reconstruirmos o conjunto, estaremos sempre falando de dominação e não de integração e inclusão, ao menos no meio organizacional.

Perplexa me encontro diante da polarização que este tema envolve. Quando converso com muitos homens à minha volta sobre a questão do ”machismo” deparo-me com situações que chegam perto da agressão, pois me chamam de feminista, queimadora de sutiã. Acusam-me de querer o lugar dos homens, argumentando que empoderar as mulheres significa dar o poder de dominação para elas. Questionam sobre quem me autorizou a dizer que tudo que é ruim vem do macho (machismo) e tudo que é bom vem da fêmea (feminismo).

Quando falo com feministas e digo que precisamos trabalhar também a libertação do homem, recebo comentários sobre quais seriam minhas razões para querer cuidar de “dodói de homem”. E, finalmente, quando falo com amigas que vivem papéis de executiva bem-sucedida como eu, dizem que esta história de gênero é desculpa de quem não conseguiu se desenvolver profissionalmente. Basta querer, mulher não precisa de bengala.

Parece que cada um assume uma posição e não está disposto a somar as diferentes visões para desenhar um mundo no qual cada um encontre seu espaço e possa se desenvolver a partir de sua essência.

Meu propósito é contribuir com o desenvolvimento das pessoas para que cada um encontre sua maneira de ser feliz e isso implica aceitar a diversidade. Significa somar e não dividir o que causa polarização. Ser feminista não quer dizer ser contra o homem. Querer igualdade é abrir caminhos para dar uma melhor visibilidade para todos sobre a construção social sob a qual fomos educados e criar uma oportunidade para trabalhar juntos.

O fato de eu querer integrar o bem-estar do homem na minha dinâmica de construção da igualdade não significa que sou machista. Também não estou agindo com meu lado maternal construído socialmente pela atribuição à mulher do perfil acolhedor e cuidador. Eu quero somar, eu não quero ser nem feminista nem machista, eu quero trabalhar pelo direito de cada um exercer seus atributos femininos e masculinos. Pergunto-me: o que tem impedido as pessoas de aceitar posições não polarizadas? Por que somos obrigados a ser uma coisa ou outra? Será que quanto mais falamos de abertura e inclusão, mais as pessoas têm necessidade de afirmar seu posicionamento para se sentirem seguras? O que está rolando por traz desta necessidade de catalogar as pessoas em uma posição ou outra?

Em conversa recente com um colega, descobri que homens estão analisando a questão do papel deles na sociedade e de maneira aprofundada. Assim como estudo a questão por meio da vasta literatura sobre a dominação masculina, eles estudam os ritos que permitiam a passagem do menino para a vida adulta de homem. Muitas coisas que ouvi me deixaram com a curiosidade ainda mais aguçada para criar este espaço de colaboração. Por exemplo, ver um homem dizer que ele não ajuda sua esposa, pois só ajuda quem não tem responsabilidade sobre uma tarefa, me deixou feliz. Para ele, ser adulto significa assumir a responsabilidade sobre sua vida e isso implica saber cuidar de si e da sua descendência (vida doméstica e filhos).

Também ouvi que, segundo os estudos destes ritos, eles entendem que existe um papel paterno e um materno. O que poderia inicialmente me preocupar, será que estariam associando os atributos da figura paterna ao homem? Segundo sua visão, esta figura poderia ser exercida pela mulher? Quando disse que assumi os dois papéis (mãe e pai) e percebi sua abertura para discutir como podemos atribuir o papel educacional de empurrar os filhos para a vida adulta (o famoso “pontapé no bumbum”), compreendi que finalmente encontrava uma brecha para iniciar este trabalho em cocriação. Nossa conversa evoluiu sobre a famosa reclamação da mulher que quer delegar o trabalho doméstico, pois não percebe que ambos são responsáveis. Falávamos em línguas diferentes e nos entendemos! Conseguimos concluir que ainda há um modelo pior: a mulher que delega e exerce liderança autoritária na qual tudo que se refere ao doméstico tem que ser realizado do jeito dela.

Fiquei muito feliz com esta conversa, partimos de mundos e pesquisas muito diferentes. Depreendemos que nos importamos com a igualdade e isso nos coloca em predisposição para ter abertura, escutar o outro e crescer juntos no tema. Não luto pela construção da dominação feminina. Tenho ouvido, em muitos grupos femininos, mulheres falarem e se apresentarem como poderosas.

Para mim, empoderamento não é ser poderoso sobre os outros e sim sobre as nossas próprias escolhas, trazê-las para o nível da consciência e saber levar a vida de maneira a exercê-las. Não preciso ter poder sobre o outro para fazer o que quero. Preciso é dar também poder ao outro para que ambos encontrem seu espaço. Não quero criar um mundo das mulheres, adoro os homens e quero continuar vivendo ao lado deles, escolha que fiz e exerci toda minha vida. Minha luta é para que isso seja uma escolha possível para todas mulheres. E você, como é que está efetivamente contribuindo para um mundo mais inclusivo no ambiente do trabalho e doméstico?

 

Texto originalmente publicado em

https://www.vreginacoaching.com/single-post/2016/08/02/Teste-2

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Vera Regina Meinhard Cobellache
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