Diferenças entre iguais.
O momento é bom. Cada vez mais pessoas procuram seus caminhos, seus propósitos de vida, seus valores reais e não os empurrados goela abaixo pelo que se costuma chamar de maioria. Cada vez mais homens e mulheres se questionam: porque pensar como todo mundo, trabalhar no mesmo formato que todo mundo, desejar um presente e um futuro iguais aos de todo mundo, amar como todo mundo, se vestir como todo mundo, ter a mesma crença de todo mundo, se existe o Maravilhoso Mundo do Pensar Diferente ?
Todos temos as nossas biografias esperando para serem escritas, nossas particularidades, nossa maneira de ver as coisas.
Conviver com a diferença de pensamento e de ação é um exercício fundamental. E é importante sempre lembrar que as diferenças existem para gerar convivência e harmonia, não intolerância e tensão.
Ao longo desse período de reflexão e de mudanças não foi uma nem duas vezes que fiquei diante de alguém que esperou que eu criticasse quem não pensava como eu, quem não tinha decidido o que eu tinha decidido, quem continuava dentro do que se costuma chamar de –ah, os nomes, os clichês, as palavras, a necessidade de rotular- modelo tradicional. Jamais fiz isso.
Ando pensando bastante sobre até que ponto as pessoas estão preparadas para encarar as diferenças, e até que ponto se cria um mito sobre quem decide escolher outros trajetos na vida ou simplesmente não é igual à nós, à nossos amigos, às pessoas do nosso bairro, do nosso trabalho ou do nosso país. Até porque, se você parar para pensar vai ver que no fim das contas somos iguais, habitantes desse planeta, independente de cor, religião, time, gosto musical ou classe social.
Pensar diferente é uma coisa. Se achar diferente e por isso superior ou dono da razão é outra.
No último final de semana li um ótimo texto do David Coimbra falando sobre isso, chamado “Esses diferentes são todos iguais”.
David é um jornalista e cronista gaúcho. Seu texto é danado de bom e tem uma enorme capacidade de ser sempre certeiro, rápido, direto ao ponto.
Fiz questão de colocar o texto aqui no blog.
Aqui está:
“Li que o psicopata norueguês que assassinou 76 pessoas em Oslo é um “fundamentalista cristão”. Ou seja, trata-se de um adepto radical do cristianismo. Que é, todos sabem, a religião do amor. No seu grande manifesto filosófico, o Sermão da Montanha, Jesus disse: “Amai ao próximo como a ti mesmo”.
Mais até. Ele disse: “Amai aos vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem”. Logo, um fundamentalista cristão deveria ser uma pessoa que ama incondicionalmente as outras pessoas, que entende o significado revolucionário de oferecer a face esquerda quando alguém lhe aplica uma bofetada na direita. Deveria ser um adepto da paz e do entendimento entre os homens.
Qual é o problema daquele norueguês, então? Qual é o problema de outros tantos cristãos convictos que lutaram contra os muçulmanos em Cruzadas, queimaram mulheres em fogueiras, supliciaram hereges, submeteram índios pela força das armas e, ainda hoje, matam, roubam e exploram o próximo? Será que esses cristãos todos padecem do terrível mal que atormenta o povo brasileiro, a interpretação de texto defeituosa? Não pode ser. É gente demais.
Provavelmente eles entenderam tudo o que a religião deles prega, mas não têm interesse em agir de acordo com suas próprias crenças. Porque o cristianismo diz que todos somos iguais, e essa é uma ideia insuportável. As pessoas querem, desesperadamente, ser diferentes. A vida inteira lutam por isso, para se diferenciar dos outros. Não querem que os outros sejam seus “semelhantes”, querem que sejam diferentes. O patriotismo, o nacionalismo e o racismo se alimentam desse conceito, o de que as pessoas são diferentes.
Não faz muito, um aluno de História de uma universidade gaúcha escreveu um trabalho em que se referiu a questões “multirraciais”. Algo mais ou menos na linha do psicopata norueguês. Estamos no século 21 e ainda há pessoas que acreditam em raça. Pesquisas com DNA, testes com Carbono 14, a Ciência com cê maiúsculo, enfim, já provou que somos todos misturados, nós, humanos, que todos viemos do mesmo lugar, a mãe África, e que não há, e nunca deve ter havido, uma chamada “raça pura”.
Em essência, que o conceito de raça é falso, que raça não existe. Está tudo escrito, explicado por historiadores, por cientistas, por filósofos: não existem diferenças espirituais, físicas e intelectuais entre os seres humanos. Somos todos iguais, seja qual for a cor da pele ou a textura do cabelo. Isso é detestável para quem se crê diferente.
O curioso é que as pessoas que mais querem ser diferentes não toleram diferenças. Homofóbicos arrancam orelhas de supostos gays a dentadas, antitabagistas tentam proibir o fumo até em parques, ecologistas chutam carros nas ruas, europeus brancos fecham as fronteiras a africanos negros.
Não toleram diferenças, mas passam a vida a ressaltar o quanto eles são diferentes e chegam a defender suas diferenças a bala. E eis aí a razão de grande parte do sofrimento da Humanidade: é o fato de haver quem acredite que ser diferente é o mesmo que ser melhor.”
Boa semana.
Leandro
